Dizem que foi o dia da poesia.
Dizem que foi dia do belo e da palavra.
Dizem que foi dia.
Mas, ó Deus, foi noite em brasa!
Foi o escuro, foi tormento!
Que esta guerra ninguém trava
sem um pingo de bravura,
paciência que dura
ou navalha que crava
... na pele e na alma.
Dizem que foi Primavera.
Dizem andorinhas e amarelos.
Diz-se nova Era.
Mas, foi sons de paralelos,
monstros internos
que gorgolejam zelos
silenciosos, de vendas
nos olhos dos outros.
Foi fúria, foram fendas
e rasgos, sós, soltos.
Dizem que foi dia,
mascara-se a eternidade.
Dizem-se alegria,
mas são somente metade
do bom senso
do comum normal mortal:
Tu, que és perpétuo mal,
confusamente fusco e tenso
na beleza da saudade
na firmeza da verdade
daqueles tempos longínquos,
em que realmente fora dia.