segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Carta para mim

Lisboa, 27 de Setembro de 2010

...
este lápis escreve, descreve-me e prescreve-me a dor.
Cumprimento-me breve e pausadamente. Quero que eternamente se decalque a imagem de mim própria, absorta em felicidade, na minha retina... quero enquadrar-me no ângulo lânguido desta máquina que me fotografa em rápidos disparos... inesperados e irreconheciveis no negativo.

A todo o custo, quero legar-me (por e a mim própria) ao Sempre.

Esta carta, destinada a mim, fala-me de dor, crescimento, maturidade, ascensão e consistência.
Cresci.


Desenho-me em palavras de desafogo.

E, por fim, neste rascunho, lego aos dias do Amanhã a minha imagem, sob a lente analista da minha memória.

Torno o meu olhar sobre mim própria e inalo cada fotograma com uma vontade ainda mais ávida de os saborear, desfrutar...

O que fui, já não sou porque o que somos é feito do que fomos e ultrapassámos na construção do que conseguiremos almejar vir a ser.

Por essa mesma razão: escrevo-me.



Despeço-me.

Deixo-me os meus cumprimentos e as minhas falsas sinceridades ao nobre modo do formalismo litúrgico e minto-me...
Vou-me declarar evoluída como quem se atinge ao ego final...
E, sei, de hoje em diante a minha imagem serei eu quem a construirá, pouco a pouco elaborando o meu puzzle onde a minha imagem e esboço rasurado e rascunhado substituirão as peças em falta, perdidas no caminho entre a loja e a minha casa.

Saudades de ti/mim e cá nos encontraremos.
Manli Cataf

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Já não

Perguntei-te
se querias ficar...
negaste-mo

Tinhas que partir.

Que Fado o meu...
não mais te ver,
não mais sentir
o calor da tua presença.

Levanto-me.
Cai, sobre a pedra fria,
a lágrima que me
escorreu pelo rosto,
arrastada pela chuva
que me esfria a pele.

Olho-te, mais uma vez...
essa tua imagem,
devorada pela intempérie
de sol e chuva e vento e
maus tratos da Natureza.

Não és tu.

É a representação,
imóvel, de ti
que me prende
às lembranças.

Torno, lentamente.

Viro as costas e miro-te,
mais uma vez

De cabeça baixa,
visto o casaco.
Olho em frente
e caminho para longe
de ti,
sim,
porque eu perguntei-te
se querias vir comigo.

E preferiste ficar.



Por isso,
deixo
flores, velas, pedras, imagens,
sonhos, pessoas, histórias e memórias
para trás.

E levo-te comigo.


(à minha prima Célia. Descansa em paz!)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Silêncio

A tua voz

O som do brilho dos teus olhos a ecoar

O teu sorriso que me fala
nas noites em que não durmo
em que não me é permitido existir...


A quietude

A tua mão

O teu toque

O teu carinho e a vontade de sorrir


...
Nada dura para sempre
mas este era o meu momento do eterno!


E tu só te quiseste a ti
e não mo lo revelaste...


O vício leva-me pelo caminho
do facilitismo que me domina
pela vereda de quem sozinho
a si próprio se contamina...


O vírus de ti
O sonho de mim

e a noite que passou.

E o passado que me amou
também me traiu.


Foste-te.
Leva-me contigo

que eu, sem sentido
me vou...
me levo...
me afundo

e te prezo
na minha solidão.

Leva-me... leva-me!
Pela mão.

Se não me queres,
fá-lo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Amanhece

Amanhece…
O sol acaricia-te a face
E embala-te ao som da brisa,
Que te desperta como se amasse
O tempo que esquece
E fala a todos com a voz
De quem te olha, em silêncio,
E que por dentro grita
Os pudores de não te poder falar.

O silêncio entorpece-me…
E deitou-me na relva, a sonhar…
A ver a vida que acontece
E te leva… por onde vais, num flutuar
De imagens que se me enchem o pensamento.

Sorrio, com a pele a queimar ao sol…
Sinto o viver a passar por mim.
Espero por ti
Espero assim
Espero, enfim,
Na acalmia do turbilhão que me envolve.

Amanheci.

domingo, 12 de setembro de 2010

" Enterrem-me de pé!", de Isabel Fonseca

Sinto o sorrateiro irromper
do Nada.

Sinto-me a esvair
em Alma.

Sinto-me a não sentir
a dor

que sinto quando não sei
do Amor...

que sinto quando me sei
a ir

A sorrir do circo em que vivi,
a ironizar o ciclo em que caí,
a martirizar o que me resta
do sonho, do amor e de
todas as outras coisas inerentes a isto,
ao que não presta,

à Vida,

esta vida que não sinto.

...

Minutos...
Chagas...
Pequenas mortes consecutivas.

Dor que me sucumbe à vida,
Corruptos
sons de compasso.

Mecânico,
automático...
Sofrido vivo,
morto.

Minutos,
Chagas...
Pequenas mortes consecutivas
trespassando-me e levando-me

as almas

desdobradas
por ti...


e que,
minuto a minuto,
me arrancas
e me levas
o ar, o brilho, a vida...

...Minutos,
memórias:
Mórbidas Glórias
de quem vive sem
ti.

Pulsar

Calcorreadas
as veias
pelo sangue
que pulsa...

sinto a explosão
que me impele
em mim,
no corpo, na pele,
no ser que senti...
No ser
que queima
que teima
na intempérie
que me habita.

Pulsar
sinto-o...!
Sinto o bater,
o acelerar do coração...

Vejo-te...
Chego, por fim,
perto de ti.
Beijo-te
e, sei, saí
finalmente,
completamente,
de mim...

E,
na tua mão,
acalmei e morri
feliz de amor!

Parcela

Morre, parcela de mim...
morre que o esquecimento
e a apatia afastam a dor



Morre, parte de mim,
leva contigo o Eu e a alegria
mas também o sofrimento.


Morro.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Deambulo

Deambulo…
Estranho e devaneio…
Perco-me no Mundo e nas Letras
Do que leio.

Vejo e entendo o raiar
Do sol, já não luar…
Que, de insónia e moléstia,
Se me confundem.

O ar respiro com sofreguidão;
E inspiro a fome,
Antiga de doente,
Vadia, de cão.

Fui.

Já não sou.

Serei.

Navego, busco,
Investigo, procuro,
Encontro, concluo,
Preservo e afundo,
Assusto e recuo…
Sorvo goles e goles
Sucessivos…

Náufrago no Oceano da minha vida…
Tão breve, clara e infinita.
Não vou…
Fui.

E serei pó

Ironizo-me

Tantos corpos frios,
almas vazias e dispersas
que fogem da vida,
da realidade, das respostas
e da corrida

que nos arrasta
para os vícios do Mundo.


E eu, do meu poiso,
observo... fumo o meu cigarro
na paz de quem as escarnece

E vicio-me,
envelheço

aceito-me
e sou feliz.


Ar de Luz

Irrompeste
Trouxeste o fogo e a brutidão do amor contigo

arremessaste-me para perto de ti
e levaste-me a bater, a embater contra o fulgor do te amar

elevaste-me a mim
e partiste.

Calaste o que pensei
e falaste o que não querias sentir

levaste-me contigo
para onde não querias ir
e lá me deixaste

soltaste-me em ti
e não me deixaste domar
o que se sente, arrebata, arranca
do coração, de punho cerrado que te rasga de mim.


Entrega-me à tua solidão
E deixa-me respirar a tua luz.