segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Lisboa

Ruas e vielas
de idades e pessoas
de relógios apressados;
eléctricos estagnados
em quadros vendidos a turistas.

Miradouros que se põem com o entardecer
e dormem com o sol quente de Verão
e se elevam com a lua da Primavera...
esta é a cidade que espera
por aqueles que virão
e por aqueles que cá se deixaram ficar.

Calçadas usadas pelos passos,
fontes bebidas em compassos
de tempo inesgotado e eterno...

Cidade, cosmos e caos,
de luz enternecedora,
música que lá fora
esconde o que quero
reter para mim...:

Recantos, escadas e saudade
que me trazem a liberdade
de me viver,
perdendo-me sem fim.


Dedicado à Daniela, a Emigrante Erasmus... ;)

Parcelas

Sou parcelas de mim.
Pequenas particulas que oscilam entre o ser e o desejar.
Sou bocados dispersos que se atraem em constante desalinho e confusão.
Sou muito e sou pouco, sou Eu e não sou ninguém.

Sou um anjo caído no Hades que pena entre as almas perdidas e lamuriantes.
Sou pessoa e não existo.
Sou um pouco de mim, de ti, de toda a gente.

Sei que sou pouco entre as gentes deste Mundo. 
Porém, o que sou é o que tenho e o que tenho é tudo o que posso oferecer.

Boneca de Trapo

Em tempos...
tive uma boneca de trapo.

De tranças, de melancolia, de esperança, de sardas e sorriso intenso, doce e ingénuo.
Em tempos, brinquei com essa boneca de trapos.
Mas eu cresci.

Tornei-me mulher sem me aperceber.
E a boneca ficou, foi ficando... lá.

O vestido de cores petizes, engraçadas, ternas...empalideceu, ganhou pó e tempo a mais no uso.

A minha boneca de trapo... esquecida.
A boneca que me olha, ainda sardenta, sorridente e criança, não me julga.
Mas eu cresci e abandonei.

No entanto, não, não me julga.
A minha boneca de trapo não mudou, eu sim.

Ainda hoje a tenho.
Já não me pertence.
Ficou no passado e não a incentivei a me acompanhar.
Julgo-me eu a mim própria por o não ter feito. Mas já não a tenho.

A sorridente sardenta, lá está... na prateleira.

Está comigo, mas não a tenho... porque a esqueci.

Mente

há dias... há dias que me anda esta ideia na cabeça.

Mente

deixa-me! Não me faças pensar...

Mente, obscena.
Liberta-me e deixa-me escrever tudo... tudo o que se alinha na minha cabeça e que quero expressar!


Ajuda-me só a voar.

Monstros

Monstros... monstros que me habitam.

Rugidos, medos e fugas...
monstros que me libertam e me prendem para me voltarem a soltar e perseguir.
Monstros...
Garras, dentes que são machados de guerra, cortantes, devorantes e fragmentantes.
Monstros...

Soturnas noites que me desprendem de mim e me arrastam por trilhos, florestas, árvores e sombras...

Monstros que preparam o banquete, o fogo, a lenha e temperos...
Monstros e pesadelos que me percorrem a carne arrancada, forçada ao sangue e ao latejar estropiante da dor.

Monstros, realidade...

Monstros, sonho...

Monstros: vida, acordar, sonhar, viver... ver e sofrer.

Monstros... arrastam-me e levam-me daqui, para dentro de mim.