domingo, 6 de julho de 2014

Amanhecer

Matinalmente, exteriorizo-me
a mim e à minha consciência.

Eleva-se o odor de terra húmida
com tentáculos alpinistas
até os circuitos nervosos mais escondidos,
o que me faz reagir, fechar os olhos e inspirá-lo profundamente.

Jogo as mãos ao peito, olho em volta
e aprecio a clarosa desertidão que me rodeia:
as almas, se existentes, estarão em reunião
numa outra qualquer parte;
as máquinas, ruidosas, estarão mortas
pela noite que acabou de partir;
e os animais, esses, estarão escondidos
das trevas, prestes a prestar
a sua impercepção, alegre e inocentemente,
em passeios vespertinos e enérgicos.

Estou só.

E aproveito para devorar com os olhos
o que os restantes sentidos se limitam
a assimilar.

O verde da erva é mais verde.
O laranja dos céus é mais laranja
(todavia pincelado de um dourado radiante).
E o branco das paredes das casas é mais alto.

Contentada com a minha descoberta,
regresso.

E aproveito para me juntar a eles,
em uns gloriosos momentos finais
da sua ociosidade nocturna.

Deixo de estar só...
mas volto a ser comum.
E o branco das casas volta a ser como antes.



Quando chovem os olhos

Tenho o pensamento nublado
e o sol que se deleita no silêncio
da chuva e de ti.

Por ousadia
descobre-se um orvalho
que, tímido e nostálgico,
me leva a lânguidos passos pensativos,
de uma mente que vagueia por entre o teu sorriso, abraço, voz
e o exterior...
uma rua, lá fora, diferente da nossa
outra que não a que partilho contigo.
Diferente por distante.
E longínqua por me estranhar.

Quando chovem os olhos
tenho o pensamento nublado,
o coração a transbordar de geada
e o olhar brilhante por te ver
- por entre a chuva -
tão presente no arrepio que a saudade transporta
num gélido rasgar pelo interior mais profundo de mim.